É com lágrimas que recordo aquele dia, dia em que mais do que todos os outros, depositei em ti o meu grande amor; por ele fui levada através de palavras cheias de flores, sorrisos e falsidade, dizendo significar nosso futuro e que tanto confiei.
Hoje choro, não por nosso filho, ou melhor, esta criança que carrego no ventre, pois filho é algo muito lindo que provem de um ato único de amor, mas sim por ter amado um monstro que disfarçado em caracteres humano, também dizia me amar, era meigo carinhoso, que nem ao menos eu podia um pouquinho só, desconfiar que guardava em sua doçura e seu sorriso, uma imagem de terror, rosnando para saciar sua fome como os antropófagos que devoram seus semelhantes sem ao menos raciocinarem que proveniente daquele ato, outros mais passarão fome.
Hoje, como nunca, desprezarei esta criança, eu a amo e ela é somente minha, pois o amor também foi só meu, já posso vê-la chorando em seu berço, sente fome, eu a alimentarei, mas pobrezinha também quer ver seu pai, e agora o que farei, sei que ao vê-lo ainda mais chorara, ele a amedrontará com sua face desumana, também não terá ele, moral suficiente para beijar-lhe à testa e sufocar seu choro, mas ao mesmo tempo sinto-a contorcendo-se em sorrisos nos meus braços, ela é linda e tão sadia quanto meu amor.
Se soubesse que atrás de sua graça e beleza, trouxesse os caracteres do pai, preferia ver um monstro em minha frente que soubesse ser leal e amar como eu amei, linda e a beleza que carregamos na alma e quando aplicada aos que nos circundam, impede a visão de nossos defeitos físicos.
Milve (por volta de 1970)